O LIVRO DAS ÁGUAS (Para Hilda Hilst)
Houve um tempo em que eu tinha a inocência de ler horóscopo
e mesmo não
acreditando, era bom.
Tipo um tempo que eu tinha gastura, cajá no quintal de casa,
mãe que tirava a nata de meu leite e confiava cegamente em
pessoas, cães pouco bravios e água de filtro de barro.
Houve esse tempo.
Houve esse tempo numa concha-caracol.
Porque exatamente neste tempo, eu lembro que acreditava ser
aquele som o
mar.
E ouvia.
Era um tempo de água. Água sempre pode escapar. Escapar
entre os dedos.
Escapar de ser cuspe.
Água pode ser esperma, pode ser lágrima suor cristal açúcar
Como quem copula na água e bebe o suor de deus..
Uma felicidade póstuma de quem um dia esteve numa água,
dentro de outro
ser de água, num planeta que há mais água que tudo.
Como querem que Vitória seja sensata?
Minha cidade é uma ilha mirada pela brevidade de mares que
poucam e
ainda, se cavar mesmo...lá na própria Nossa Senhora dos Navegantes,
você encontrará: água.
Eu tinha uma amiga que mora em Londres agora, mergulhada em Neblina...
Havia um escafandro na casa dela e tantos drinques com gim
entre a gente...
Porra, por que nós, os vivos, temos ânsia de ser porto?
De alguém, de algo, de estar alheio.
Caio em mim quando acho que lembro agarro-me a esta réstia
azul de tentar ser contemporâneo. Resma de verdes páginas
completas de urano, minério, navios. Como quem agarra água.
Como quem copula com Deus.
Com quem?
Eu quero é ser navio.
Ser louca, Stella do Patrocínio, palhaça, que gauche é muito
chic.
Sair por aí fedendo a ser gente.
No meio de uma rua que vira inteira sua casa, você sendo louca (o) vira a
cidade, a
cidade inteira é sua casa, tudo é comida.
Tipo: acho que Deus pensa que é um mendigo.
Azul.
(Mara Coradello)
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2 comentários:
eu não consigo acessar o temsereno!
=/
Ei lis, como esta? as vezes escrevo, acho bom isso, pois atraves da poesia podemos ter ~contato~ com as pessoas que gostamos mesmo estando longe..ate boa amiga rsrs
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